Quando eu era criança e assisti aos primeiros filmes do Homem Aranha, ficava alucinado desejando que de alguma forma meu pulso pudesse expelir teias que me suportassem e pudessem fazer com que eu me pendurasse pelos prédios da cidade assim como meu herói de infância. Hoje em dia, adulto, não tenho mais essas fantasias, afinal, a teia sair diretamente do pulso não faz muito sentido…
Meu primeiro contato com o teioso foram os filmes de Sam Raimi, e acredito que esse foi um ótimo primeiro contato. A trilogia conta com ótimos vilões e atuações. Maguire, como um Peter Parker nerd e looser, mas que sob a máscara era um grande herói é convidativo para que crianças se identifiquem e para fazer crescer aquela ideia de que todos podemos ser heróis. No decorrer da minha vida, tive contato com outras versões do teioso, joguei o game de PS2, e também o The Amazing Spider Man. Vi Peter Parker ser encarnado por Andrew Garfield, numa versão mais geek e descolada, mas também cheio dos problemas típicos da adolescência. E hoje em dia, quem diria, sou mais velho que o Peter atual do MCU, mas consigo me divertir perfeitamente assistindo as aventuras do brilhante Tom Holland.
Tendo conhecido tantas versões do herói e tendo também essa memória afetiva, concluo que ter tido a experiência de mais uma vez estar no controle do Homem Aranha por Nova Iorque em Marvel’s Spider Man numa história tão brilhante é uma experiência nostálgica, repaginada para tempos modernos, mas que carrega um pouco de cada versão de Peter Parker que eu e você já conhecemos antes. Isso é acentuado pela maravilhosa imersão que o game oferece, desde cenários reproduzidos com perfeição (caso se lembre de algum monumento famoso de Nova Iorque, ele estará lá para você se pendurar e tirar uma foto), sensação de realmente estar voando pelos prédios, pois a gravidade e flexibilidade das teias permitem uma infinidade de movimentos de altura e velocidade variadas, além de uma ótima história envolvendo governo, ciência, família e amor. Até os mínimos detalhes fazem com que você tenha um sentimento de pertencimento à cidade que nunca dorme, como pedestres que pedem para tirar uma selfie com você ou te xingam, afinal a figura do Homem Aranha é polêmica e não há um consenso entre a população sobre se ele é o herói ou um vilão.
Reprodução
Essa imersão faz com que o jogo demore para deixar ou nunca te deixe enjoado de jogá-lo. Às vezes acabei preferindo ir voando e fazendo acrobacias no ar no caminho para missões longes a pegar as viagens rápidas (cujas cut scenes são o teioso pegando o trem lotado, às vezes tem até um cara dormindo encostado no ombro dele, genial né?). Esse é o grande mérito da desenvolvedora Insomniac, que parece ter pegado as melhores qualidades de games de heróis e também os melhores momentos do Homem Aranha e nos apresentado nesta obra. É difícil não dizer que existe muita influência da franquia do Batman, da Rocksteady, mas isso não reduz em nada a qualidade de Marvel’s Spider Man, que diversifica sua pegada heroica para um ambiente mais realista, moderno e palpável.
Além de enfrentar as grandes ameaças que são os grandes super vilões do game, você terá como missões secundárias tarefas das mais variadas, que servem para divertir e também construir a relação de Peter com o elemento vivo que é a cidade e os cidadãos que você ajuda e te relembrar que ao mesmo tempo que é o Homem Aranha é também o amigão da vizinhança. Por exemplo, uma dessas missões é caçar os pombos de um cidadão que requer sua ajuda por ter perdido suas queridas aves de estimação. Os colecionáveis espalhados pela cidade são mochilas que ele abandonou pela pressa em se vestir de aranha e cada uma tem um item do passado de Peter dentro. Na minha experiência, coletar todos os colecionáveis e realizar todas as missões secundárias não foi em nada menos divertido do que fazer a história principal justamente por ser tão divertido conhecer cada canto desse mundo aberto e voar por ele.
Reprodução
Tudo isso é fruto da atenção que a Insomniac colocou não apenas nos elementos mais relevantes do jogo, mas também nos seus detalhes, fazendo com que esse universo faça sentido tanto no macro quanto no micro. Um exemplo disso é a transmissão do programa de rádio de J. J. Jameson que está sempre comentando sobre as consequências das últimas ações do Aranha pela cidade (falando do ponto de vista dele, claro). Além disso, existe uma enorme variedade de diálogos contra os criminosos que você combate, muitos com o bom humor já conhecido de Peter, dando boas tiradas com a cara da bandidagem. Além de JJJ no rádio enquanto você se pendura por aí, temos também outros diálogos importantes da história, como com Mary Jane, Tia May e a capitã de polícia local Yuri.
Como já comentado, a cidade parece um elemento vivo e irá reagir ao desenrolar da história. Novas falas aparecerão entre os pedestres pelos quais você inevitavelmente esbarra e o mais notável é o clima que vai ficando pesado e escuro conforme a tensão aumenta. Como os bandidos também fazem parte desse organismo, eles também vão ficando sofisticados durante a história e requerem cada vez mais movimentos arrojados de ataque para serem derrotados, fazendo com que a curva de dificuldade do jogo seja justa e equilibrada. Durante o jogo, você poderá desbloquear golpes e combos mais complexos, além de criar equipamentos que ajudam nos ataques, como bombas de teia, teias de choque ou drones-aranha.
A tecnologia é essencial para o enredo e isso me fez identificar mais essa versão de Peter com o descolado Andrew Garfield e o jovem Tom Holland. Entretanto, quem é saudosista dos primeiros longas com Tobey Maguire poderá experimentar o traje dele no jogo. Na verdade, você poderá desbloquear diversos trajes no game, fazendo com que se sinta dentro do seu respectivo filme ou saga dos quadrinhos favorito. Os gráficos são ótimos, fazendo com que o uniforme esteja reproduzido com riqueza de detalhes, e isso é muito maneiro; eu mesmo passei boa parte do jogo com a roupa de Tobey Maguire e depois com a roupa de ferro que aparece em Vingadores Guerra Infinita. Cada um desses trajes desbloqueia um poder de traje único que tem a ver com sua especificidade de luta.
Reprodução
O enredo e a narrativa acertam em cheio ao nos prender na trama; logo no início do jogo enfrentamos o grande Rei do Crime, cuja prisão deixa um vácuo de poder corrupto que o prefeito Osborn tenta suprir. Peter é estagiário de Octavius, que, sem novidade nenhuma, acaba indo para o lado negro da força com seus braços robóticos, mais cedo ou mais tarde na trama. Além disso, temos outras grandes batalhas com bosses como Shocker, Escorpião, Rino, Abutre, etc. Apesar disso, o enredo aborda o lado humano dos personagens, fazendo com que visite vítimas de ações vilanescas no trabalho de Tia May e conheça um pouco da vida de Miles Morales, que, mais uma vez sem novidade, irá vestir o traje de Homem Aranha, mas não sem antes enfrentar grandes desafios e traumas em sua vida. Aproximar um herói de seu público através de seu lado mais humanizado sempre foi característica essencial para qualquer história de Homem Aranha e aqui não poderia deixar de ser diferente.
Reprodução
O único defeito que acho pertinente citar, mas que não prejudica na gameplay, são bugs comuns de jogos de mundo aberto, como por exemplo, vilões que acabam sendo jogados contra uma parede e se fundem com ela, ou momentos em que você acaba atravessando o chão e tendo uma visão do subsolo da cidade enquanto cai num fundo infinito. Esses bugs não depreciam e nem quebram o jogo, e devemos considerar a gigantesca escala do jogo que acaba por deixar esses detalhes acontecerem. Mas o jogador mais bem humorado saberá rir até mesmo dessas cenas absurdas.
Marvel’s Spider Man criou um grande hype no ano de seu lançamento e marcou a geração em seu gênero. A continuação da franquia “Marvel’s Spider Man: Miles Morales” também já é sucesso entre o público e inova ainda mais dentro do gêrero. O título ainda não passou pelas minhas mãos, mas me deixou muito ansioso para conhecer mais da vida de Miles Morales e conhecer sua saga de herói no manto de Homem Aranha. As duas histórias parecem ser independentes, não sendo necessário jogar o primeiro antes do Miles Morales. A experiência de jogar Marvel’s Spider Man foi a experiência de reencontrar um amigo conhecido numa nova época, mais tecnológica, mais madura, ainda que divertida e muito envolvente. Um título obrigatório para quem gosta de jogos de herói em geral, pois é a suma de tudo que houve de melhor para ser oferecido. Uma história de Homem Aranha com todos elementos essenciais para uma boa história que já conhecemos e que todo fã ama.
Reprodução