Talvez a principal mensagem de Paternidade seja sobre uma nova perspectiva sobre como abordar a dor dos outros: o silêncio. Quando não podemos compreender o sofrimento alheio, mesmo nos sentindo impelidos a ajudar ou acalentar, às vezes é necessário intuir nossa impossibilidade de realizar isso e optar pelo silêncio é a melhor opção. Paternidade, de 2021, está disponível na Netflix e conta com a direção e roteiro de Paul Weitz.
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Matt é um jovem pai viúvo, cuja filha nem ao menos teve tempo de conhecer a mãe, que morreu no dia seguinte ao parto. Dessa forma, a experiência da paternidade para ele, além de ser uma novidade, será uma experiência solitária. Solitária sim, mesmo apesar de ele estar rodeado de amigos e familiares, é nos momentos mais íntimos com a filha que podemos ver as cenas mais tocantes de incertezas e dúvidas sobre sua capacidade de exercer a paternidade solo. Kevin Hart protagoniza muito bem o papel, nos entregando um personagem que está disposto a encarar seus medos e incertezas com a melhor disposição possível, o que dá uma ótima energia e fluidez ao filme.
Essas pessoas que orbitam a vida de Matt por mais bem intencionadas em suas palavras e ações acabam colocando sobre ele uma carga de expectativa e responsabilidade além daquela natural, e podemos compreender que isso acontece pelo fato de ele ser um pai de primeira viagem viúvo. Matt só consegue pensar e tomar decisões importantes em momentos de solidão, onde, inevitavelmente, se encontra com sua tristeza e luto; um processo que deve ser vivenciado por mais que seja evitado.
Apesar disso, o grupo de amigos fornece bons momentos de descontração e humor no filme, sem qualquer tipo de masculinidade tóxica. Talvez os amigos, família e até o chefe de Matt tenham o tratado de maneira mais acolhedora do que isso aconteceria de fato na vida real; eu não imagino uma mãe ou um pai solo sendo tão bem acolhidos em tantas esferas da sociais, e a experiência seria um tanto mais difícil. Mas, como já citado, talvez esse excesso de cuidado tenha sido justamente o alvo da crítica de roteiro de Paul Weitz, colocando Matt não em uma posição de desamparo em sua paternidade e sim em uma posição de sufocamento diante de tantas opiniões e palpites.
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O longa pode ser dividido em dois momentos que fluem muito bem: a primeira hora onde Maddy é apenas um bebê e causa problemas típicos de comédias com bebês, como problemas com fraldas, vomito e choro e a segunda metade onde ela já conta 5 anos e está ingressando no jardim de infância e começa a fazer perguntas difíceis sobre a ausência da mãe. Nessa fase, ela é interpretada pela incrível atriz mirim Melody Hurd (que também estrela Them, da Amazon Prime). A interação entre ela e seu pai é excelente e ajuda a nos aproximar desse núcleo familiar que passa a dividir uma tristeza sutil que os acompanha em todo o momento, mas que aprende a tirar o melhor da vida apesar disso em cenas divertidas, como num passeio no parque ou num jogo de truco com os amigos, onde Maddy, claro, dá uma aula nos marmanjos.
Ainda nessa segunda metade, uma personagem importante entra na vida de Matt, com a qual ele inicia uma relação afetiva. Agora o pai tem novos desafios de fazer a filha compreender que essa nova moça pode ocupar um papel importante na vida deles, mesmo não sendo sua mãe biológica e mesmo que acabe causando ciúmes à filha no começo. Não apenas a chegada de uma nova mulher traz novas questões para Maddy, mas também para Matt, que antes de iniciar uma nova relação, deve lidar com seu luto pela primeira esposa. A adição da personagem não atrapalha em nada a trama, ao contrário, apenas enriquece por trazer esses novos questionamentos numa situação tão peculiar.
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O roteiro tenta abordar outros problemas sociais pertinentes, como por exemplo, a questão da vestimenta não ter gênero, quebrando algumas barreiras da expressão de gênero. Maddy gosta de se vestir com o uniforme de meninos da escola onde estuda e enfrenta preconceito sobre essa postura. Ao fim do filme, seu pai também é visto usando saia, demonstrando que superou esse preconceito também. Mas, apesar da discussão ser pertinente, penso se o fato do filme ter a relacionado com a ausência da figura materna não foi algo desastroso, afinal expressões de gênero ou de identidades sexuais não tem necessariamente algo a ver com a ausência ou não de um dos genitores. Tampouco essa análise psicológica se faz necessária hoje em dia, sendo antes, algo patologizante relacionar, por exemplo, a homossexualidade à ausência de um dos genitores.
Fato é que o filme coloca questões realmente possíveis de se passar pela mente de uma criança criada apenas pelo pai e abordar isso é algo positivo, além de enriquecer o drama em cenas que apenas o pai não dá conta de sanar as dúvidas ou necessidades da filha e deve encarar de frente suas limitações. Mas não necessariamente na realidade a ausência da figura materna leva a um questionamento sobre orientação sexual ou identidade de gênero. Antes de construir tal investigação psicológica, vale lembrar que a expressão de gênero é uma manifestação natural de nossa identidade e não deve ser vista como produto de uma falta ou de um prejuízo na criação.
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No fim do longa existe uma cena que parece um pouco forçada, onde Matt se sente fracassado na missão de pai e escolhe passar um tempo longe da filha em virtude do trabalho. Essa atitude não é muito coerente com tudo que havia sido mostrado no longa, que era justamente sua crescente habilidade com a filha e as situações acerca da paternidade. Felizmente, essa precipitação em inserir uma situação dramática final não tem o poder de estragar a trama, mas ainda parece sem necessidade de estar ali.
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Paternidade carrega uma leveza que nos faz sentir muito bem ao assistir, e ao mesmo tempo carrega mensagens muito poderosas e pertinentes para nossos tempos. O protagonismo negro, o luto e a paternidade solo, a problemática dos novos arranjos familiares, a questão da vestimenta como expressão de gênero estão presentes neste filme simples, íntimo e poderoso, que nunca deixará de ser moderno e cativante.